15 de junho de 2009

"Reprise" relembra hoje a novela "O Cravo e a Rosa"


Escrita por Walcyr Carrasco, co-autoria de Mário Teixeira e colaboração de Duca Rachid, direção de Walter Avancini, Mário Márcio Bandarra e Amora Mautner, produzida pelo núcleo de Dennis Carvalho. Os autores escreveram uma comédia romântica inspirada no clássico A Megera Domada, de William Shakespeare, e na novela O Machão (TV Tupi, 1974), de Sérgio Jockyman.


A novela se passa em São Paulo, em 1927, e narra o conflituoso romance entre o machista Petruchio (Eduardo Moscovis) e a feminista Catarina (Adriana Esteves). Julião Petruchio é um caipira rude e ignorante, mas com um bom coração, dono da Fazenda Santa Clara, onde fabrica queijos para vender na cidade. Ele herdou a fazenda do pai, em condições precárias, e luta para mantê-la funcionando, apesar do seu trabalho duro mal dar para saldar as dívidas que vieram junto com a propriedade. Por conta disso, já nos primeiros capítulos da novela, ele pede um empréstimo ao tio Cornélio Valente (Ney Latorraca).

Na fazenda de Petruchio também vivem Calixto (Pedro Paulo Rangel), antigo criado da casa que é como um pai para o fazendeiro, o que não impede que seja chamado de asno durante os acessos de fúria do patrão; Neca (Ana Lúcia Torre), uma criada esforçada, sempre às turras com Calixto; e Lindinha (Vanessa Gerbelli), filha de Calixto, uma moça bonita e sem estudo, criada desde pequena na fazenda. Ela é apaixonada por Petruchio, mas ele a trata como irmã. Para conquistá-lo, Lindinha é capaz de qualquer golpe baixo. Ela, por sua vez, é o amor da vida de Januário (Taumaturgo Ferreira), um caipira ingênuo e de bom caráter, cuja única companhia é uma porquinha de estimação a quem ele trata como uma filha. Lindinha o humilha sempre que possível.

Catarina Batista é uma jovem bonita, mas muito temperamental, a ponto de ganhar dos rapazes o apelido de “a fera”. Filha mais velha do banqueiro Nicanor Batista (Luis Mello), ela é rica, bem-educada e afinada com a causa do feminismo que começa a ganhar repercussão dentro da sociedade paulistana. Como suas amigas Lourdes (Carla Daniel) e Bárbara (Virginia Cavendish), igualmente feministas e virgens, Catarina está convencida de que homem nenhum presta e de que nunca se casará.

Quem mais sofre com a atitude de Catarina é sua irmã mais nova, Bianca (Leandra Leal), moça meiga e romântica que sonha em encontrar um grande amor. Para seu azar, Batista é um conservador que só consentirá que ela se case depois que filha mais velha o faça. Ele faz sua parte e arranja inúmeros pretendentes para Catarina, mas ela coloca todos, um a um, para correr. Um deles é o jornalista Serafim (João Vitti).

Porém, o que parecia impossível começa a se desenhar quando a mulher de Cornélio, a dissimulada e ambiciosa Dinorá (Maria Padilha), decide pôr as mãos no dinheiro do banqueiro Batista arranjando um casamento entre a doce Bianca e o seu irmão, Heitor (Rodrigo Faro). O rapaz é um esportista bon-vivant e mau-caráter que, assim como a irmã e a avó Josefa (Eva Todor), vive às custas do genro Cornélio. Para se livrar de Catarina, Dinorá decide entregar a dívida de Petruchio com Cornélio ao agiota Normando Castor (Cláudio Corrêa e Castro). Quando o agiota cobra a dívida a Petruchio e exige a fazenda como pagamento, Dinorá sugere ao fazendeiro o seu plano: ele deve seduzir Catarina e depois usar o dinheiro dela para pagar a dívida.

Desesperado, Petruchio aceita a sugestão de Dinorá e começa a fazer a corte à Catarina, se fingindo de submisso e pateta, e deixando que ela o manipule à vontade. A estratégia dá certo e, depois de muita confusão, os dois se casam. A vida de casados se torna um inferno, já que os dois são extremamente geniosos, e Catarina tem freqüentes crises de cólera, durante as quais atira virtualmente tudo o que encontra ao redor na cabeça de Petruchio. Ainda assim, com o tempo, ela começa a perceber as qualidades do marido e termina se apaixonando por ele. Petruchio também se apaixona, mas nenhum dos dois dá o braço a torcer.

Petruchio não consegue resgatar a dívida com o agiota, depois de casado, porque Joaquim de Almeida Leal (Carlos Vereza) se adiantara a ele. Fazendeiro poderoso, ele tem ódio de Petruchio, a quem considera culpado pela perdição de Muriel, sua única filha. No passado, ela se apaixonara pelo fabricante de queijos, mas fora rejeitada e sofrera muito. Joaquim então a enviara para estudar na Suíça, onde ela se perdeu e seguiu uma vida dissoluta. Como vingança, Joaquim passa a pressionar Petruchio para que ele entregue a fazenda.

Enquanto isso, com Catarina casada e fora do caminho, Dinorá dá prosseguimento ao seu plano aproximando Heitor de Bianca. O pilantra conquista o coração da jovem sensível com poemas românticos que ela ignora serem escritos pelo professor Edmundo (Ângelo Antônio). Este é um intelectual que dá aulas de poesia para a moça, mas não tem coragem de se declarar porque veio de família pobre. Iludido por Heitor, ele escreve o que sente nos poemas e encanta a amada, mas sofre por não poder colher os louros da façanha. Ao longo da história, Bianca descobre que seu verdadeiro amor é Edmundo, e que Heitor apenas estava interessado em seu dinheiro. Com a ajuda de Cornélio, Edmundo finalmente se declara e conquista Bianca.

A novela toma outro rumo com a volta de Muriel, a filha de Joaquim e que agora atende pelo nome de Marcela (Drica Moraes). Ela chega da Europa acompanhada do fiel escudeiro Ezequiel (Déo Garcez) e disposta a conquistar Petruchio. Quando fica sabendo do seu casamento com Catarina, ela seduz Batista por interesse e o usa para destruir a vida da rival.

Mesmo com várias armadilhas armadas por Marcela e Lindinha, que fazem tudo para separá-los, das ameaças de Joaquim e das inúmeras brigas ocasionadas pelos seus temperamentos explosivos, Petruchio e Catarina acabam finalmente se entendendo e admitindo que se amam. Catarina descobre que está grávida de Petruchio, e os dois ficam ainda mais felizes. Mesmo a má notícia do casamento de Batista com Marcela parece trazer uma vantagem para o casal. O banqueiro pretende entregar à filha um envelope contendo várias apólices do seu banco, o que a tornará rica e a ajudará a melhorar sua vida com Petruchio. Entretanto, as apólices desaparecem misteriosamente do cofre do pai durante a festa do casamento.

Pouco depois, Batista descobre o verdadeiro caráter de Marcela e a abandona para viver com Joana (Tássia Camargo), uma costureira humilde, dona de uma pensão e sua amante há mais de dez anos, mas que ele só agora descobre ser o amor de sua vida. Marcela se recusa a ceder o divórcio ao banqueiro. A vilã também consegue roubar as promissórias da dívida de Petruchio e começa a ameaçar tomar a fazenda dele. Petruchio desconfia que Marcela é responsável pelo roubo das apólices e, para desmascará-la, finge ceder a sua sedução, abandonando Catarina.

Na Fazenda Santa Clara, Calixto se casara com dona Mimosa (Suely Franco), a empregada de Batista que criara Catarina e Bianca desde a morte da mãe delas e que continuara sendo empregada de Catarina depois do casamento. Januário, por sua vez, continua fazendo a corte e sendo esnobado por Lindinha, mesmo depois que as maldades dela para separar Petruchio e Catarina são descobertas, e ela é escorraçada de casa por Calixto.

A sorte de Januário muda quando Joaquim descobre que o caipira é seu filho, fruto de uma aventura no passado. Comovido, ele se reencontra com o rapaz. Pouco depois, morre e deixa todas as suas posses para o porquinho de Januário. Marcela, que não reconhece Januário como irmão, astutamente compra o porco dele antes que ele possa reivindicar o dinheiro.

A verdade sobre o roubo das apólices só aparece no capítulo final. Na festa de noivado de Bianca e Edmundo, Petruchio consegue, com a ajuda do delegado Sansão Farias (Paulo Hesse), reunir todos os que estiveram na noite do roubo. Ele revela, então, seu plano à Catarina e começa a interrogar os presentes para que dêem explicações sobre o que haviam feito na noite do crime. Marcela acaba confessando que tentara roubar as apólices, mas não as encontrara. Heitor também admite ter tentado, mas que levara o envelope errado. Finalmente é revelado que o envelope com as verdadeiras apólices havia sido recolhido por ninguém menos do que dona Mimosa. Ela vira Marcela vasculhando o escritório do banqueiro e como, depois de trabalhar anos naquela casa, sabia a numeração do cofre, pegou o envelope com as apólices e o escondera no seu álbum de fotografias. Ela planejava contar tudo à Catarina mais tarde e só não o fizera porque fora descoberta por Lindinha. A caipira a chantageara ameaçando contar tudo à patroa. Como sempre teve medo do caráter vulcânico de Catarina, a empregada se calou e ficara esse tempo todo dando do seu próprio dinheiro para comprar o silêncio de Lindinha. Enquanto isso, o álbum e as apólices estavam nas mãos do menino Buscapé (Luís Antônio Nascimento), que o roubara para achar uma foto dos seus pais, antigos empregados dos Batistas. Esclarecido o mistério, o álbum é devolvido, Catarina recupera as apólices e volta às boas com Petruchio.

Para evitar ter que responder processo por tentativa de roubo, Marcela negocia com Batista a retirada da queixa em troca da concessão do divórcio ao banqueiro. Batista paga também a dívida de Petruchio e recupera as promissórias. Assim, ela não tem mais como chantagear o fazendeiro. O dinheiro da dívida vai direto para as mãos do gerente do hotel onde Marcela mora há semanas sem pagar as contas, mas ela está certa de que ainda pode contar com o dinheiro da herança de Joaquim, já que é dona do porquinho de Januário.

Ao procurar o advogado do pai, Marcela recebe o golpe final: o porquinho não herdou nada, tudo não passava de uma farsa armada por Joaquim. Quando já havia se convencido do verdadeiro caráter da filha, o fazendeiro instruíra os advogados para que a história do porquinho fosse usada como artifício para distrair a filha até que a situação legal de Januário fosse regularizada e ele pudesse receber toda sua fortuna sozinho.

Pobre e abandonada, Marcela termina a novela unindo forças com Heitor. Os dois passam a formar uma dupla de vigaristas que fingem ser irmãos para tomar dinheiro de desavisados em jogos de pôquer. Já Bianca se casa com Edmundo, depois do longo noivado. Januário consegue finalmente conquistar Lindinha, que depois de pagar por tudo o que fez, se arrepende e pede perdão por seus erros.

Catarina dá a luz gêmeos. Ela e Petruchio prosperam nos negócios da Fazenda Santa Clara, felizes, sem implicâncias e individualismos. Depois do beijo dos dois na cena final, uma animação computadorizada mostra um casal de beija-flores que sobrevoa a fazenda carregando um camafeu dourado idêntico ao da abertura da novela. Eles o abrem em pleno ar e revelam as fotos de Petruchio e Catarina.




PRODUÇÃO

Durante duas semanas, antes do início das gravações, equipe e elenco de O Cravo e a Rosa assistiram a um workshop que incluiu a palestra do historiador Nicolau Sevcenko, professor de história da Universidade de São Paulo, que contribuiu com muita informação a respeito dos costumes da sociedade paulistana da década de 1920. A novela também contou com uma extensa pesquisa de vocabulário feita por Carla Miucci, uma especialista em cinema dos anos 1920, em cima de cartas de leitores publicadas em jornais e revistas da época, resgatando palavras e expressões comuns naquele período. O autor Walcyr Carrasco também leu os contos adultos de Monteiro Lobato e textos de Oswald de Andrade para se familiarizar com o linguajar.

Vinte e seis cenários de estúdio foram construídos para a novela, entre eles a mansão art nouveau do banqueiro Batista, personagem de Luis Mello. Só na cidade cenográfica, no Projac, 24 edifícios foram reunidos. A parte principal da cidade foi construída a partir de uma fotografia do Largo do Tesouro, em São Paulo. Nessa área ficavam, entre outros ambientes, várias lojas com vitrines, uma confeitaria, uma igreja, uma barbearia, uma quitanda, uma pensão, um dancing e a fachada da Revista feminina. A produção ainda construiu um bonde, que, adaptado a um carrinho elétrico, transportava cerca de 20 pessoas pela cidade. O Clube Fordinho, que reúne colecionadores de veículos antigos em São Paulo, cedeu à produção sete Ford Modelo T – lançados entre 1919 e 1927 – para serem usados na novela.

Um sítio localizado na Ilha de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro, foi a locação da fazenda de Petruchio. Lá foram cenografados a casa do personagem, um estábulo, um chiqueiro, um galinheiro e o local para a fabricação de queijo. Para as cenas em que Petruchio aparecia fabricando queijo em sua fazenda, a produção contou com ajuda de uma cooperativa, que forneceu 30 queijos prontos por dia, mais 60 litros de leite líquido e 60 litros de leite coalhado.

Em Lagoa de Cima, em Campos, foram gravadas as cenas de uma regata, competição tradicional no início do século, promovida no Rio Tietê ou na represa Guarapiranga, em São Paulo. A seqüência em que a equipe de remadores da qual Heitor é o capitão vence a prova teve a participação de 36 atletas do Clube de Regatas do Flamengo, Clube Naval e Guanabara. Como preparação para as cenas, Rodrigo Faro, intérprete de Heitor, treinou durante algumas semanas no Flamengo.

Dois tipos de filtros de câmera foram usados pelo diretor de fotografia Flávio Ferreira com o objetivo de conseguir uma luz mais realista, tendo como referência filmes como Summertime e Passagem para a Índia, de David Lean, Henry e June, de Philip Kaufman e O grande Gatsby, de Jack Clayton.

O figurino de O Cravo e a Rosa teve cerca de mil peças, sendo que 600 foram confeccionadas exclusivamente para a novela. As restantes foram aproveitadas do acervo da emissora e tiveram as modelagens redimensionadas. A figurinista Beth Filipecki conta que se baseou em filmes e personagens da literatura para criar os figurinos dos personagens. O de Catarina, por exemplo, teve forte inspiração na Emília, do Síto do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato. Assim, a personalidade forte da protagonista foi traduzida em roupas modernas, de cores fortes, com alguns acessórios masculinos, como gravatas, por exemplo.

A abertura de O Cravo e a Rosa era inspirada em fotos e filmes do início do século. Um camafeu dourado girava no ar e, a cada volta, mostrava imagens em preto-e-branco, típicas do cinema mudo, com aparência de película antiga, de vários personagens da novela, em especial Petruchio e Catarina. Uma semana antes da estréia da novela, a Rede Globo começou a inserir na programação vinhetas em que os atores parodiavam cenas de filmes mudos. Algumas imagens de época e grafismos característicos da década de 1920 foram incorporados a cenas da novela através de computação gráfica. Em agosto de 2001 a abertura foi escolhida a melhor do ano pelo júri do II Festival Latino-Americano de Cine Vídeo, em Mato Grosso do Sul.

O grande destaque da trilha sonora de O Cravo e a Rosa foi a canção de abertura, uma versão de Zeca Pagodinho para Jura, samba de Sinhô imortalizado em 1929 por Mário Reis. A trilha ainda contava, entre suas 14 faixas, com uma gravação de Ella Fitzgerald e Count Basie para Tea for two, composta em 1925 por Vincent Youmans e Irwing Caesar.



TRECHOS RETIRADOS DO LIVRO
"AUTORES - HISTÓRIAS DA TELEDRAMATURGIA"


A que você atribui o sucesso de O Cravo e a Rosa?
Ninguém achava que seria o sucesso que foi. A novela havia sido projetada para ter 90 capítulos. Ia ser curta, inaugurando uma nova fase do horário, de novelas curtas. Tanto que o elenco era reduzido, e a cidade cenográfica construída para as gravações era muito pequena. Quando a novela estava no capítulo 70, avisaram que ela passaria a ter 200. Para poder ampliar a história, eu fiz alguns pedidos à Globo. Pedi, por exemplo, novos cenários e uma nova atriz para interpretar uma vilã, coisa que a novela não tinha. Por que a novela não tinha uma vilã? Uma novela tradicional sempre tem uma vilã ou um vilão muito claro. Em O Cravo e a Rosa, que, inicialmente, seria uma novela curta, a vilã era a própria Catarina. Ela mesma impedia o relacionamento dos dois protagonistas. Em 90 capítulos, isso era possível. Mas, em 200, eu precisava de uma personagem que fizesse armações, precisava de uma vilã com perfil de novela tradicional. Então, entrou em cena a Drica Moraes. Ela interpretou a Muriel, a tal filha do personagem do Vereza que teria sido seduzida pelo Petruchio. Na realidade, a Muriel era uma vagabunda total.

Há alguma cena da novela de que você goste mais?
Gostei muito do casamento do Petruchio com a Catarina, porque fiz exatamente a cena de A Megera Domada, com todas as falas de Shakespeare. Desde que comecei em televisão, sempre ouvi muita gente dizer: “O intelectual não dá certo em televisão”. Ou: “Esse autor não serve para televisão porque ele faz algo inteligente demais para o público de TV”. E eu nunca acreditei nessas idéias. Acho que o público gosta de qualidade, e eu fiz Shakespeare em televisão. Essa cena de O cravo e a rosa é exatamente como a cena original de Shakespeare. E foi ótimo. Em outros momentos da novela, o Ângelo Antônio declamava poemas inteiros de Luís de Camões, e, mesmo com poemas de Camões, a audiência continuava alta. O público gostava de ouvir aquelas poesias. O problema é saber em que contexto colocar essas coisas. Se eu, Walcyr, sentar e começar a falar poema atrás de poema, ninguém vai me suportar. Mas se, numa cena romântica, em vez de o personagem dizer “eu te amo”, ele disser: “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente”, você acaba trazendo o público para o que quer, através da linguagem romântica.

Um comentário:

Anônimo disse...

adorei a novela queria que pasasse novamente foi uma das melhores novelas que já vi...hoje em dia não tem uma novela que preste...adoro adriana esteves...